Artigo - A necessária união pela democracia

Uma sombra ronda a Europa e outras partes do mundo: a do populismo de direita. Partindo da Polônia, passando pela República Tcheca, Hungria e Áustria, é possível viajar pelo Velho Continente sem deixar de estar em um país de regime autoritário.

Também na Turquia e na Itália, encontramos governos populistas que se distanciaram da democracia que, durante algum tempo, pareciam consolidadas. A queda do muro de Berlim indicava que o caminho do Ocidente seria marcado pela consolidação do crescimento econômico com oportunidades para todos.

Esse horizonte nunca chegou. A frustração tomou conta de boa parte da população e se transformou em ressentimento, que se voltou contra os partidos políticos tradicionais, os sindicatos, o sistema jurídico e até as religiões tradicionais.

Os populistas de direita, muitos deles fascistas, não foram gestados de uma hora para outra. Estavam aí acumulando forças, engendrando alianças pelo mundo, esperando o melhor momento para atacar a democracia, enquanto as esquerdas cometiam erros imperdoáveis. Aqui no Brasil não foi diferente.

Quando Bolsonaro se lançou candidato, foi menosprezado por muitos. Seus militantes mais fanáticos também. Seu guru, Olavo de Carvalho, parecia uma piada. A realidade se mostrou diferente. Nossa arrogância em reconhecer as vinhas da ira que germinavam nos levou à pulverização de candidaturas democráticas, enquanto o fascismo se unia em torno de um projeto mundial do qual o Brasil faz parte. A presença de Eduardo Bolsonaro nos encontros mais reacionários na Europa indica claramente que essa guerra contra o que eles chamam de “globalismo cultural marxista”, “ideologia de gênero”, “aquecimento global” etc., é demonstrativo de um plano mundial bem articulado. 

Alertas sobre o que está ocorrendo não faltam. Na Hungria, seu líder totalitário aumentou o número de cadeiras no judiciário maior para poder controlá-lo, transformou as emissoras de televisão em meros veículos de propaganda política e jornais independentes foram entregues a correligionários levando a graves manipulações políticas.

Na Itália, a xenofobia ganha força com a vitória do populista Movimento 5 Estrelas aliado ao extrema-direita Liga Norte. Afinados no discurso de indignação às práticas políticas tradicionais, lograram vencer as últimas eleições.

Nesse cenário, é preciso ter cuidado com análises apressadas que podem nos induzir a erro. A França, por exemplo, escapou do fascismo de Le Pen ao eleger Macron. A Espanha, se conseguiu eleger um governo de centro-esquerda, trouxe de volta ao parlamento a direita mais reacionária, depois de quarenta anos de ausência.

Mais da metade desses líderes fascistas conseguiram mudar a Constituição de seus países para se perpetuarem no poder ao arrepio dos princípios democráticos. Valeram-se deles para chegar ao poder. Uma vez lá, porém, o rejeitam e se colocam como a solução suprema pregando o fim do pecado, a volta da moralidade, a terra prometida na qual não existe corrupção. Curiosamente, na maioria dos países que governam, a corrupção aumentou.

O tsunami contra as democracias liberais está em curso. Nos Estados Unidos,Trump usa de todas as medidas populistas para se garantir na presidência. Ora acena com a construção de um muro vergonhoso, ora assusta o mundo com seu discurso belicista. Sua fala, no entanto, tem eco entre os inúmeros ressentidos.

Aqueles que perderam seus postos de trabalho vivem hoje na esperança cada vez menor de encontrarem um emprego. Empresas multinacionais, no passado vistas pela esquerda como vorazes devoradores dos recursos nacionais e exploradoras dos trabalhadores, hoje são bem-vindas. Funcionários da Ford, por exemplo, empunhavam recentemente cartazes com a inscrição “Fica Ford”, como a implorarem pela chance de serem “explorados” e não morrerem de fome.

Não podemos repetir nossos erros. Não podemos ignorar a ascensão do fascismo no Brasil e no mundo. Os charlatões dispõem dos meios para iludir o povo. Partidos políticos, sindicatos e outras representações, farão parte do passado se não se reinventarem e souberem dialogar com a realidade que se apresenta, uma realidade de mídias sociais, de representação direta, de críticas raivosas cotidianamente presentes em nossos portais. Menosprezar o inimigo será assinar nossa sentença de morte.

Os populistas estão unidos, promovem reuniões frequentes pelo mundo. Nós, os democratas, estamos acuados e fragmentados. Precisamos de união para sobrevivermos e garantirmos a democracia no mundo.

Os fascistas não têm projetos para o país, mas sabem projetar sobre seus inimigos toda a incompetência da qual padecem. É preciso atacar os professores, os juízes, os sindicalistas, os políticos, as minorias. Precisam manter a população em estado de atenção permanente, em constante excitação.

Neste momento, nós os democratas, precisamos apresentar um projeto para o país. Precisamos demonstrar que podemos fazer melhor do que os fascistas. Precisamos de uma alternativa. Bolsonaro é um ogro incompetente e paranoico que foi eleito unicamente por essa conjuntura que nos é desfavorável.

Mais do que nunca, precisamos de um pacto eleitoral que garanta direitos. Outras questões, ainda que importantes, são secundárias neste momento.

Lidamos contra forças singulares. Curiosamente, os partidários dos populistas sabem que seu líder é grosseiro e mentiroso e é justamente isso que os atrai.

A batalha pela sobrevivência de nossa democracia está em curso. Diferentemente de outros países, ainda podemos reverter esse quadro. Para isso, teremos que vencer a resistência dos cidadãos cada vez mais ressentidos, raivosos e desiludidos.

Olhando o quadro geopolítico que se desenha é fácil perceber que o populismo avança pelo mundo. A resistência ao populismo de esquerda no ditatorial e cruel governo venezuelano, aliado a ex-membros das FARCs que corromperam a cúpula militar com recursos do tráfico internacional não é garantia para a instalaçãode um governo verdadeiramente democrático e não populista diante do autoritarismo recente. Nossa tarefa neste momento é, a partir de uma sólida aliança em torno de valores democráticos, garantir a sobrevivência da própria democracia.

Segundo Yascha Mounk, em seu “O Povo Contra a Democracia: Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la”, nos EUA menos de um terço dos millennials (os jovens de hoje) acreditam na democracia.

Devemos lutar para evitar a tirania da maioria, garantir que os ricos e poderosos não passem sobre os direitos dos desfavorecidos. A cidadania é a garantia que todos serão tratados como igualdade e equidade por serem seres humanos que gozam de direitos por sua condição de seres humanos e não por pertencerem a um grupo determinado. Que todos participarão do crescimento econômico, e não apenas uns poucos. A concentração de renda é fonte de violência e campo fértil para o populismo que facilmente encontra a quem culpar: são sempre aqueles mais ligados ao campo progressista.

A união é mais importante do que nunca. As lições da história estão aí, nos livros, enquanto eles existem. Lutemos para que continuem existindo. Para que a democracia não morra. Para que nossos valores de cidadania e justiça social não se tornem página virada.


Enilson Simões de Moura - Alemão
Vice-Presidente Nacional da União Geral dos Trabalhadores - UTG