Artigo - O Crepúsculo do Soft Power: A Doutrina Monroe 2.0 e o Sequestro da Soberania Sul-Americana

Em um lance que desafia não apenas a diplomacia moderna, mas a própria estrutura do Direito Internacional, o mundo testemunhou o que pode ser descrito como o ato mais temerário do imperialismo contemporâneo: a intervenção direta e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos. O evento ocorre sob a égide da recém-proclamada Doutrina Monroe 2.0 — ou “Don/Monroe” —, uma atualização agressiva do dogma de 1823 que, sob o pretexto da “América para os Americanos”, reafirma o continente como o quintal exclusivo da hegemonia de Washington.

?O Desespero da “Fera Acuada”

?Para compreendermos a ontogenia deste ato, é preciso olhar além da superfície jurídica. O que vemos não é um sinal de força, mas o espasmo de uma “Fera acuada sem saída”. Como observa a análise geopolítica crítica, o imperialismo estadunidense, ao ver suas ferramentas de “soft power” esvaírem-se e sua dominância econômica contestada, recorre ao desvairio.

?A negação das regras internacionais estabelecidas no pós-Guerra sugere um mundo de controle à deriva. Trata-se da forma da demência humana (homo demens) , mais crua e desesperada: um império que tenta deter o fluxo da história através da força bruta, ignorando que a realidade multipolar já se cristalizou.

?Do Imperialismo ao Multilateralismo: A Ideologia Dialógica

?Enquanto o Norte Global tenta restaurar um domínio anacrônico, o Sul Global, articulado pelo BRICS Plus, propõe uma alternativa sistêmica. Não se trata apenas de uma troca de potências, mas de uma transição para a Pós-Modernidade baseada em uma Ideologia Dialógica Humanista Sistêmica.

?Inspirados pela autopoiese de Humberto Maturana e pela complexidade de Edgar Morin, os países que compõem este novo eixo entendem que a soberania nacional não é um obstáculo, mas a condição fundamental para uma sustentabilidade global real. O BRICS Plus apresentar-se-á como a ferramenta de mediação necessária para um planeta que clama por paz e por um desenvolvimento que não seja predatório.

?O Papel do Brasil: A Práxis da Dialogia

?Neste cenário de incertezas, o Brasil emergirá como o fiel da balança. A diplomacia do Itamaraty, sob o governo Lula, é chamada a realizar um verdadeiro sociopsicodrama geopolítico. Utilizando a “Práxis” da dialogia — tão cara ao pensamento de Jacob Moreno —, o Brasil deverá atuar como o mediador capaz de transformar o conflito em diálogo, transformando a crise venezuelana em um palco para a afirmação da autonomia sul-americana.

?A sabedoria diplomática brasileira será testada em sua capacidade de navegar entre a agressividade da Don/Monroe e a construção da Nova Rota da Seda chinesa, a resiliência russa frente à OTAN e a resistência do Irã às injustiças no Oriente Médio.

?Caminhante, Não Há Caminho

?A história não está escrita; ela se faz no passo a passo. Como lembrou o poeta Antonio Machado, “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. O sequestro de Maduro é um obstáculo severo, mas não altera o curso da história que aponta para a queda da unipolaridade.

Podemos prospectar que ?a partir de fevereiro e março, com o protagonismo da Índia ( dirigente do BRICS ano 2026) e do Brasil nas discussões sobre o futuro da Venezuela, que deverá integrar-se, o mais rápido possível, no âmbito do BRICS Plus, veremos se a força bruta do império conseguirá deter a emergência de uma ordem mais justa. Por ora, o que resta é a resistência e a certeza de que a nova ordem mundial será tecida pela diplomacia, pela soberania e pela solidariedade entre os povos do Sul.

?VIVA O BRICS!


Diógenes Sandim Martins
é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP

 

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