Artigo - Do voto ao veto

O sufrágio universal e o voto popular são expressões inequívocas da vontade e da soberania de uma população e de uma sociedade. Pelo menos esse é o mantra e o cânone da concepção liberal de democracia e cidadania.

No último pleito presidencial, contrariando as expectativas triunfalistas de uma extrema-direita que se assentou na tríade ódio–mentiras–violência como embandeiramento político e modus operandi, Luiz Inácio Lula da Silva arrancou uma espetacular e histórica vitória eleitoral.

Não faltaram as acusações de sempre, a começar pela delirante invencionice de uma suposta fraude nas urnas (as mesmas que haviam consagrado o abominável Jair Bolsonaro como presidente quatro anos antes), mote que instigou o primeiro grave incidente na noite de 12 de dezembro: a tentativa de invasão da sede da Polícia Federal.

Espécie de preâmbulo do inesquecível e imperdoável 8 de janeiro, ali se desenharam os contornos da futura e sequente investida golpista com fins ditatoriais. A baixa reatividade dos órgãos de segurança e mesmo da classe política, ou por parte da grande imprensa, deram ar de normalidade e ambiente de impunidade à subversão da ordem democrática e legal.

Sobre o 8 de janeiro, não são necessárias maiores delongas: a cobertura midiática, o inquérito policial e o julgamento nos tribunais forneceram farto conteúdo e provas dos (des)arranjos orquestrados e das finalidades tenebrosas por parte da extrema-direita fascista.

Apurados rigorosamente os fatos e as articulações, a condenação dos golpistas por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e associação criminosa armada (dentre outros crimes) levou à cadeia os mentores, seus executores e financiadores. Tudo dentro do mais transparente e devido processo legal, com a garantia de ampla defesa e a presunção de inocência asseguradas.

O segundo voto — o de deputados e senadores, representantes no Congresso Nacional não só de seus eleitores, mas da observância rigorosa da Constituição Federal — depõe contra a verdade política e a vontade social ao mascarar uma obscena anistia, na qual só os criminosos sairiam com vantagens e a democracia seria seviciada, por meio do chamado PL da dosimetria.

Luiz Inácio Lula da Silva merece nosso aplauso, reconhecimento e apoio pela coerência e coragem em ter vetado integralmente essa excrescência que ofende a memória dos que tombaram pela liberdade e pela justiça, desrespeita a cidadania vigorosa e ativa que não se dobra ao autoritarismo e ameaça as futuras gerações de brasileiras e brasileiros que herdarão e desenvolverão os princípios e práticas do Estado Democrático de Direito, combinando-o com o Estado de Bem-Estar Social e com o Estado Nacional soberano.

Em resumo, neste 8 de janeiro de 2026, terceiro ano da vil tentativa de golpe de Estado e de instalação de um Estado de exceção, reputamos o veto presidencial como o reconhecimento e a valorização do voto que recuperou e reconstrói o Brasil e que precisa seguir no rumo do enfrentamento e da superação do fascismo, por meio de uma ampla frente política que assegure democracia, soberania, direitos e desenvolvimento para o povo e a nação.


Alex Saratt
Professor das redes públicas municipal e estadual em Taquara (RS), 1° vice-presidente estadual do Cpers, Secretário de Comunicação da CTB RS e Secretário Adjunto da CNTE

 

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