Artigo - O Agente Secreto fala mais de esquecimento do que de memória

Na mesma semana em que assisti O Agente Secreto, recebi uma notícia que, de certa forma, relacionei ao filme.

A notícia era que a filha do ativista sindical, já falecido, Newton Candido, finalmente foi no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo buscar a homenagem que fizemos a ele.

A ideia de homenageá-lo surgiu, por parte do Sindicato, durante as preparações para o Dia da Luta Operária de 2025. O evento — criado a partir de lei do então vereador Antônio Donato, que instituiu o Dia da Luta Operária em 2017 — consiste em homenagens a sindicalistas e personalidades que contribuíram para o movimento sindical, estejam eles ainda em atividade ou in memoriam, como foi o caso.

Entretanto, apesar de termos feito uma busca intensa, não conseguimos contato com a família de Newton a tempo de que comparecesse à cerimônia para receber a homenagem. Assim, o próprio Sindicato recebeu o prêmio.

Antes disso, em 2022, Newton também havia sido escolhido para integrar a lista de 200 nomes definida pelas centrais sindicais por ocasião dos 200 anos da Independência do Brasil. Ao lado de grandes nomes do país, sua foto, no painel de divulgação do projeto, aparece desfocada, apagada, um rosto perdido em meio a uma grande passeata. Aquele era um dos poucos registros que havia dele.

Paradoxalmente, apesar dessa escassez de registros, grande foi sua importância para as pessoas que o conheceram — a ponto de reivindicarem seu nome no rol dos grandes sindicalistas brasileiros.

Ainda que eu não o tenha conhecido — nem a sua filha — foi emocionante para mim saber que esse laço foi, de certa forma, restabelecido.

A conexão dessa história com o filme está nas memórias que se perdem e na tentativa de resgatar vínculos desaparecidos. Em O Agente Secreto, toda a luta do personagem Armando é, afinal, esquecida por seu próprio filho, esquecida pelo país, guardada em um arquivo quase por acaso, parte de um projeto interrompido. Só é levada adiante — como memória — pela pesquisadora, por uma decisão pessoal.

Assim como abandonou mortos pelo caminho, a ditadura — e é disso que o filme fala — atropelou histórias, destruiu memórias e impôs um pensamento dominante e opressor, que se revela no industrial corrupto, na família rica e no sistema de privilégios.

O filme expõe também a perda forçada de identidades, de nacionalidades e até dos próprios nomes.

Emblemático desse apagamento é a ausência de registro da mãe — uma mulher escravizada — do personagem Armando. Essa lacuna se alinha ao projeto da ditadura, pois expressa a sociedade que o regime protegeu com violência.

Vi o filme como um gesto de resistência, de cumplicidade e de reestabelecimento de vínculos.

Traze-lo para o presente revela algo que, para muitos, é evidente: a ditadura ainda é uma ferida aberta — ou um cadáver insepulto. E ainda há muitas memórias à espera de serem resgatadas.


Carolina Maria Ruy
Pesquisadora, jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

 

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