O mundo corporativo habituou-se a medir o sucesso por indicadores de desempenho, relatórios de ESG e balanços trimestrais, mas dados recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) exigem uma revisão urgente dessas métricas. Novas estimativas globais revelam que fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho são responsáveis por mais de 840 mil mortes anuais, decorrentes de doenças cardiovasculares e transtornos mentais associados.
Esse impacto humano é uma face visível e perversa da violação do direito fundamental ao trabalho seguro e saudável, e que também impõe impactos econômicos severos. A combinação de enfermidades ligadas ao trabalho resulta na perda de 1,37% do Produto Interno Bruto (PIB) global anualmente. São cerca de 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade perdidos todos os anos.
No Brasil, onde a produtividade laboral é um desafio crônico, ignorar o ambiente de trabalho psicossocial não é apenas uma falha ética; é um erro estratégico de gestão e de sustentabilidade empresarial. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) da Plataforma SmartLab e do Ministério da Previdência Social revelam que, em 2025, ocorreram 546,2 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais -, um crescimento de 15,7% em relação ao ano de 2024, sendo que os códigos de Classificação Internacional de Doenças (CID) mais prevalentes estão associados a transtornos de ansiedade e episódios depressivos.
As mulheres representam 63,5% dos beneficiários afastados, evidenciando que a sobrecarga e a desigualdade nas relações de trabalho punem de forma desproporcional a força de trabalho feminina.
Diferentemente do que sugere o senso comum, o risco psicossocial não se resume ao "estresse individual". Ele reside na forma como o trabalho é desenhado, organizado e gerido, incluindo as interações entre as pessoas e as políticas e práticas da organização. Fatores como jornadas exaustivas — com 35% dos trabalhadores globais excedendo 48 horas semanais — e a exposição à violência e ao assédio - que atinge 23% da população trabalhadora - são determinantes críticos.
O ambiente psicossocial é o reflexo direto de como o trabalho é concebido e gerido. Práticas que negligenciam a clareza de funções, a autonomia e a transparência nos processos criam um terreno fértil para a violência, o assédio e a exclusão. Quando esses fatores falham, transformam-se em riscos que produzem impactos concretos e severos nas pessoas, na produtividade e nos resultados financeiros das organizações.
A transformação digital, o trabalho remoto ou híbrido e a inteligência artificial (IA) trouxeram novas camadas de complexidade ao mundo do trabalho. Se, por um lado, a tecnologia oferece flexibilidade e eventuais ganhos de produtividade, por outro, pode exacerbar riscos por meio do monitoramento digital constante que pode se transformar em vigilância e da indistinção entre tempo laboral e vida pessoal.
Um relatório recente da OIT observa uma mudança fundamental no paradigma da regulação internacional: a migração de um modelo focado apenas na "saúde mental", muitas vezes voltado para respostas individualizadas após o adoecimento, para quadros preventivos robustos e sistêmicos que identificam, reconhecem e regulam os riscos psicossociais na origem.
A prevenção eficaz exige um olhar sobre quatro níveis interconectados: primeiro - o trabalho, com o alinhamento entre competências e demandas, autonomia e design de tarefas; segundo - a gestão, preconizando a clareza de papéis, o suporte social e a qualidade das interações; terceiro - políticas organizacionais, por meio de sistemas de remuneração/benefícios e melhoria das condições de trabalho, prevenção de assédio e mecanismos de consulta aos trabalhadores e às trabalhadoras; e, finalmente o diálogo social, que, por meio da gestão compartilhada dos riscos e da integração dos mesmos aos acordos coletivos, permite que regras gerais sejam adaptadas à realidade de empresas e trabalhadores.
Para as empresas e organizações que buscam o protagonismo na agenda ESG, a mensagem é inequívoca: a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho deve ser integrada de forma interrelacionada entre às funções de recursos humanos, à governança da Segurança e Saúde no Trabalho e ao núcleo organizacional que define as metas corporativas a serem alcançadas. Medidas organizacionais e coletivas, como a gestão de carga de trabalho, o aprimoramento e o engajamento da liderança, devem ter prioridade sobre ações meramente individuais.
O futuro do trabalho, da competitividade e da justiça social depende da capacidade de criar hoje ambientes que não apenas evitem a doença, mas que assegurem o direito fundamental do trabalhador à integridade mental e física, combinando ambientes seguros e saudáveis com aumento da produtividade.