Artigo - Tempo é vida: o fim da escala 6×1 cobra urgência

A última terça-feira (30) foi marcada por vigorosas manifestações em várias capitais e cidades brasileiras pelo fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário. Milhares de cidadãos saíram às ruas e os protestos invadiram vias cruciais como a Avenida Paulista, em São Paulo, e o Terminal Gentileza no Rio de Janeiro, ecoando um sentimento generalizado de exaustão e urgência.

O recado das ruas ao Senado foi claro: tempo é vida e a classe trabalhadora está cansada de comprometer a maior parte do seu tempo de vida com uma jornada exaustiva imposta com o propósito de maximizar os lucros capitalistas e enriquecer uma minoria de ricaços ociosos, numa lógica perversa que aprofunda as desigualdades sociais.

Saúde e qualidade de vida

A realidade brutal enfrentada diariamente por dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras foi descrita de uma forma muito viva no desabafo da operadora de caixa Fátima Dantas de Souza Alves, de 22 anos, em entrevista ao repórter Bruno de Freitas Moura, da Agência Brasil, durante o ato fluminense: “Nós estamos cansados!

Trabalhando oito horas diárias em pé, a jovem negra personifica a tripla jornada que castiga a juventude trabalhadora da chamada periferia. Sua fala escancara que a atual escala rouba o direito fundamental à saúde física, mental e à convivência familiar. Para ela o fim da desumana escala 6×1, que permite apenas um dia de descanso na semana, representará “diversos alívios”.

“Tempo para cuidado físico, mental, da minha casa, da minha família, passar mais tempo com eles. Hoje eu não tenho tempo de qualidade com a minha família. Não tenho tempo de cuidar da minha saúde”, resumiu Fátima, que sonha entrar na faculdade e se tornar professora.

Mentalidade escravocrata

É evidente que o debate do tema ultrapassa o âmbito econômico, abrangendo a saúde física e mental, a mobilidade social, a emancipação das mulheres e a dignidade humana dos trabalhadores e trabalhadoras. O tempo infame da escravidão acabou, mas a mentalidade de Casa Grande da classe dominante brasileira não mudou. O Brasil acumula um século de atraso nesta matéria.

Convém reiterar que mesmo usando a economia como critério os benefícios provenientes da redução da jornada de trabalho superam largamente eventuais custos. A experiência histórica e estudos científicos, como o da Unicamp, indicam que ocorrerá aumento da oferta de emprego e também da produtividade, com redução do estresse, Burnout e acidentes do trabalho. Uma classe trabalhadora exausta e doente não é muito produtiva.

A bola está com o Senado

A responsabilidade para esta ansiada conquista civilizatória agora recai exclusivamente sobre o Senado. Com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) já aprovada e chancelada pela Câmara dos Deputados — garantindo a transição para a jornada máxima de 40 horas semanais e dois dias de descanso sem redução salarial — qualquer movimento de postergação por parte da mesa diretora configura um grave desrespeito à classe trabalhadora e ao povo brasileiro.

Sob a liderança do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, o Senado tem o dever cívico e moral de pautar e aprovar a PEC sem emendas que desidratem o texto original e com a urgência necessária. As ruas já deram o veredito: o Brasil não aceita mais e exige tempo para viver.


Adilson Araújo
Presidente nacional da CTB

 

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