Artigo - A Copa do lucro e a derrota dos torcedores

O futebol sempre foi considerado o esporte mais democrático do planeta. Nasceu nas elites, segundo a história, mas foi a classe trabalhadora quem lhe deu alma, identidade e dimensão mundial. Foram operários que, depois de jornadas exaustivas nas fábricas, encontraram nos campos de terra e nos estádios um espaço para celebrar e esquecer, por algumas horas, as dificuldades da vida. Muitos eram migrantes, distantes de suas famílias, e levavam consigo a paixão pelo clube como um pedaço de casa.

Não é por acaso que praticamente toda família tem uma história envolvendo o futebol, assim como a minha. Pais e mães que faziam esforço para levar seus filhos ao estádio, avós que transmitiam a paixão pelo time às novas gerações, amigos que se reuniam nas arquibancadas para torcer, cantar e viver momentos inesquecíveis. O futebol sempre foi muito mais do que um jogo. Era convivência, pertencimento e memória.

Os estádios também nunca foram espaços neutros. Ali se manifestavam opiniões, surgiam faixas em defesa da democracia, críticas a governos, campanhas por direitos e de solidariedade. As arquibancadas refletiam a sociedade.

Mas, de alguns anos para cá, o futebol vem sendo sequestrado pelo mercado. O torcedor deixou de ser visto como parte essencial do espetáculo e passou a ser tratado, antes de tudo, como consumidor. Tudo precisa ser monetizado. Tudo virou oportunidade de negócio. O esporte mais popular do mundo está sendo administrado como um produto de luxo.

A Copa do Mundo de 2026 escancarou esse processo. É evidente que uma Copa envolve uma estrutura gigantesca, mobiliza milhões de pessoas e desperta enorme interesse global. Natural que seus ingressos tenham valores elevados. O problema é quando o razoável dá lugar ao absurdo. Cobrar a partir de R$ 35 mil (valor em livre conversão) por um ingresso para a final entre Espanha e Argentina não é apenas um preço alto. É um recado claro de quem pode e de quem não pode fazer parte da festa. A Copa, que sempre simbolizou a reunião dos povos, torna-se um evento reservado a uma elite econômica.

Ao mesmo tempo, outro fenômeno tomou conta do futebol: as plataformas de apostas esportivas. As bets invadiram uniformes, placas de publicidade, transmissões, programas esportivos e redes sociais, transformando o futebol em um enorme cassino. Mais grave do que isso, alimentaram suspeitas permanentes sobre a integridade das partidas, lançando dúvidas sobre jogadores, árbitros e resultados. Quando o interesse financeiro passa a ocupar o centro do espetáculo, a confiança do torcedor inevitavelmente se desgasta.

Enquanto isso, milhares de famílias convivem com os efeitos devastadores do vício em apostas. Dinheiro que deveria garantir alimentação, aluguel ou educação é consumido por uma indústria que lucra com a ilusão do ganho fácil. É impossível separar essa realidade do futebol atual, porque ela passou a fazer parte do próprio modelo de negócios do esporte.

Também é preocupante perceber que, paralelamente a esse processo de elitização, aumentam os episódios de racismo e discriminação dentro dos estádios. Não acredito que seja mera coincidência, pois quanto mais o futebol se distancia de sua origem popular, mais perde sua diversidade social e cultural. Arquibancadas ocupadas por um público economicamente mais homogêneo tendem a refletir relações de exclusão que já marcam outros espaços da sociedade.

A Copa do Mundo nasceu para aproximar culturas, celebrar diferenças e mostrar que um jogo pode unir povos que falam idiomas distintos e vivem realidades completamente diferentes. Quando esse espetáculo passa a ser acessível apenas para quem pode pagar valores exorbitantes, ele perde parte importante do seu sentido.

O futebol pertence às pessoas que o construíram ao longo de mais de um século: trabalhadores e trabalhadoras, famílias inteiras, comunidades e torcedores que fizeram desse esporte uma paixão mundial.

Talvez ainda haja tempo de recuperar esse caminho. Mas isso só será possível quando lembrarmos que o verdadeiro patrimônio do futebol nunca foram os contratos bilionários, os camarotes ou os pacotes exclusivos de hospitalidade. Sempre foi o povo.


Raimundo Suzart
presidente da CUT São Paulo

 

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