Artigo - IDEB: entre o fetiche e a reificação

A divulgação dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) em 5 de agosto de 2026, ensejou diversas e diferentes abordagens e posturas por parte daqueles que atuam na educação. Importa examinar os seus resultados criticamente e extrair algumas interpretações e encaminhamentos sobre o mesmo e, modo geral, sobre a própria educação.

Cumpre observar que a análise deve evitar duas questões que turvam e distorcem a realidade e embaralham qualquer conclusão de fundamento, a sua fetichização e a sua reificação. Transformar o IDEB numa espécie de fetiche implica absolutizar o índice como única referência válida e legítima para acompanhar o desenvolvimento da educação; reificá-lo, ou seja, dar à coisa um caráter de algo vivo e incontinente mortificar ou coisificar o sujeito.

Porque afinal os números não podem ignorar o conjunto de variáveis que compõem o todo educacional e pedagógico, tampouco substituir as pessoas envolvidas no processo educativo. Ademais, é preciso registrar a oposição às provas padronizadas que declinam das condições particulares e específicas de cada realidade.

O fetiche e a reificação do IDEB impede que se afirme aquilo que a concepção progressista, democrática e emancipadora de educação apregoa a largo tempo: a de que uma avaliação séria, correta e rigorosa em metodologia, instrumentos e execução necessita que a mesma seja sistêmica, diagnóstica, não-ranqueável, não-punitiva, não-meritocrática, respeitando as diferenças regionais, econômicas, culturais, tecnológicas, admitindo no cômputo geral a política de gestão, o financiamento, o quadro de pessoal, as condições estruturais, de trabalho, salário e saúde dos trabalhadores em educação e, principalmente, articulada com um projeto nacional-soberano, desenvolvimentista-sustentável e democrático-cidadão.

As formulações emanadas dos movimentos sociais, sindicais, educacionais e outros dão uma dimensão de totalidade, apoiam-se não em métricas, mas em mensurações onde o qualitativo se destaca em relação ao quantitativo. Equilibrando elementos, compartilhando responsabilidades e objetivando resultados mais amplos, supera a mera comparação de dados arranjados a partir de duas estatísticas herméticas e limitantes, a nota auferida nas provas de Português e Matemática e o fluxo de aprovações/reprovações escolares, indicador volúvel na exata medida em que se generalizam aprovações automáticas e progressões parciais carentes de lastro para operar uma recuperação terapêutica verdadeiramente eficiente e eficaz.

Apesar das óbvias precariedades e inconsistências do IDEB e de seus riscos para o entendimento dos problemas e soluções para a tarefa de proporcionar ensino-aprendizagem relevantes às crianças, jovens e adultos, impossível não considerar que o alcance de melhores desempenhos deve ser atribuída aos profissionais da educação e, no que interessa à escola pública, a sobrevivência da educação pública e estatal – maltratada por baixos salários, orçamento insuficiente, infraestrutura sucateada, atraso tecnológico, autoritarismo governamental, entre outros aspectos deletérios.

Na seara aberta pelo debate acalorado em torno do IDEB, escapar dos fetiches reducionistas e caricatos de que a nota explica a situação real e impedir que “a coisa faça o operário”, é ponto precípuo para avançar num modelo mais abrangente, científico e producente. Que num futuro imediato possamos estabelecer um diálogo capaz de desenhar outro formato e finalidade para termos um IDEB assentado na conquista de uma educação revolucionária.


Alex Saratt
Professor das redes públicas municipal e estadual em Taquara (RS), 1° vice-presidente estadual do Cpers, Secretário de Comunicação da CTB RS e Secretário Adjunto da CNTE

 

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