Notícia - Mais de metade dos empregos no Brasil pode ser impactada pela automação nas próximas décadas, aponta estudo da JOI Brasil

Os avanços em automação, digitalização e inteligência artificial estão transformando o mercado de trabalho em escala global. Essas transformações não implicam necessariamente eliminação de empregos, mas mudanças profundas nas tarefas, ocupações e exigências de qualificação, com efeitos que variam conforme o contexto institucional e as políticas adotadas. Em países de renda média, como o Brasil, os riscos associados a esse processo tendem a ser mais elevados. É o que mostra o estudo Evidências sobre Políticas de Mercado de Trabalho e Implicações para o Brasil: Futuro do Trabalho, publicado pela JOI Brasil - iniciativa do J-PAL LAC - em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Segundo o estudo, mais de 50% dos empregos no Brasil apresentam alto risco de automação ou transformação significativa  entre 10 e 20 anos, percentual superior ao observado em economias como Estados Unidos e países europeus. A pesquisa indica que a América Latina e o Caribe concentram alguns dos maiores riscos globais de automação, especialmente em ocupações de baixa e média qualificação.

“O Brasil está mais exposto porque reúne alta participação de ocupações rotineiras, desigualdades estruturais no mercado de trabalho e menor capacidade de adaptação rápida às transformações tecnológicas”, afirma André Mancha, professor assistente da FEA-USP e coautor da série de publicações da JOI Brasil. “Isso não significa que os impactos sejam inevitáveis, mas que, sem políticas públicas voltadas ao mercado de trabalho bem desenhadas, a automação pode ampliar desigualdades já existentes.”

O documento reúne evidências internacionais sobre estratégias de adaptação ao futuro do trabalho. Nos Estados Unidos, avaliações mostram que o uso de inteligência artificial elevou a produtividade e a satisfação no trabalho, com efeitos mais fortes entre profissionais menos qualificados e redução das desigualdades internas. No Quênia, programas que combinaram capacitação em habilidades digitais com apoio direto à inserção profissional resultaram em aumento de renda e redução do desemprego, enquanto iniciativas baseadas apenas em treinamento tiveram efeitos limitados.

“As evidências mostram que a tecnologia pode gerar ganhos relevantes, mas esses ganhos dependem de investimentos complementares em qualificação, proteção social e desenho institucional adequado”, explica Mancha.

Economia de plataformas e desigualdades 

O estudo também destaca o crescimento da economia de plataformas. No Brasil, 2,1 milhões de pessoas já trabalham por meio de aplicativos, o equivalente a 2,4% da população ocupada (IBGE,2023). Para comparação, pesquisas citadas no estudo indicam que cerca de 10% dos trabalhadores nos Estados Unidos atuavam em arranjos não tradicionais. Apesar da flexibilidade, esses vínculos costumam estar associados à instabilidade de renda e à ausência de proteção social.

Outro alerta diz respeito aos impactos desiguais da automação. Evidências internacionais mostram que mulheres e pessoas negras estão mais expostas a empregos com alto risco de substituição tecnológica e enfrentam mais barreiras de acesso a setores em expansão, como tecnologia.

Em 80 países analisados, mulheres representavam 40% ou mais da força de trabalho em tecnologia da informação em apenas 12 deles. Já na Argentina e na Colômbia, apesar de serem maioria entre os graduados no ensino superior, as mulheres representam apenas de 9% a 15% das formadas em ciência da computação, Avaliações de cursos intensivos de programação nesses países indicaram aumento da probabilidade de emprego em tecnologia poucos meses após a formação, sugerindo caminhos possíveis para reduzir essas disparidades.

Decisões baseadas em evidências 

A publicação integra uma série de estudos da JOI Brasil voltados a apoiar governos, empresas e organizações da sociedade civil na formulação de políticas informadas por evidências. A JOI Brasil busca ampliar o uso de avaliações de impacto para orientar decisões em um mercado de trabalho cada vez mais marcado por incertezas e rápidas transformações.

O estudo destaca que avaliações aleatorizadas têm sido fundamentais para identificar impactos reais de políticas de qualificação, adoção tecnológica, intermediação de mão de obra e inclusão produtiva.

Sobre o J-PAL 

O Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-PAL) tem como missão combater a pobreza global por meio de políticas públicas baseadas em evidências sólidas. A organização, que realiza avaliações aleatorizadas, utiliza uma abordagem inovadora para medir o impacto real de intervenções sociais.

Fundado por Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, o J-PAL conta com mais de 900 pesquisadores de 91 universidades ao redor do mundo. A organização conecta pesquisa e ação, promovendo a criação de políticas baseadas em dados concretos.

Em maio de 2021, o J-PAL lançou a Jobs and Opportunities Initiative (JOI) no Brasil, que possui parceria com a Fundação Arymax, a B3 Social, a Fundação Tide Setubal, a Potencia Ventures, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Insper.

Através do fortalecimento de ações inovadoras e do fomento às pesquisas rigorosas, a JOI Brasil busca qualificar o debate sobre o mercado de trabalho brasileiro e disseminar o conhecimento adquirido para governos, sociedade civil, empresas e fundações no país. Pesquisas ancoradas em evidência científica ajudarão a identificar o que realmente funciona e escalar os mecanismos que consistentemente impactam as vidas das pessoas.

 


Fonte:  Assessoria de Imprensa - 02/02/2026

 

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