A Central Única dos Trabalhadores (CUT), por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária, lançou, na sexta-feira (20), em São Paulo, o projeto “Povos Indígenas e o Mundo do Trabalho”. A iniciativa, construída em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), reuniu organizações indígenas, entidades sindicais e instituições públicas com o objetivo de fortalecer atividades produtivas nos territórios e ampliar a inserção dos povos indígenas no mundo do trabalho.
O lançamento contou com a presença da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, que ressaltou a importância da iniciativa para garantir inclusão com respeito às especificidades dessas populações. “Este evento é fundamental para assegurar que os povos indígenas sejam inseridos no mundo do trabalho de forma digna e justa, valorizando as maneiras de trabalho já existentes nessas comunidades”, afirmou.
O projeto busca ampliar a articulação entre o movimento sindical e os povos indígenas, tendo a economia solidária como instrumento para apoiar a produção, fortalecer as lutas, valorizar os territórios como base do trabalho e construir agendas políticas comuns em defesa de direitos.
Para o secretário-geral da CUT, Renato Zulato, a iniciativa responde a uma lacuna histórica no movimento sindical. Segundo ele, ainda há pouco conhecimento sobre a realidade do trabalho indígena no país. “É importante construir parcerias e iniciativas de economia solidária, desenvolver pesquisas, realizar visitas aos territórios e promover a aproximação entre os povos indígenas e o movimento sindical”, afirmou.
A proposta está alinhada às resoluções do último congresso da CUT, que apontam a necessidade de ampliar a compreensão sobre a diversidade das formas de trabalho no Brasil. Nesse contexto, a economia solidária se consolida como eixo estruturante, ao valorizar práticas baseadas na cooperação, na autogestão e na sustentabilidade.
A secretária nacional de Direitos Humanos e Políticas Sociais da CUT, Jandyra Uehara, destacou que é fundamental incorporar essa diversidade à agenda sindical. “É preciso reconhecer os povos indígenas como parte da classe trabalhadora, ampliando o diálogo e fortalecendo a luta por direitos”, disse.
Evento e contexto político
Realizado na sede da CUT, o evento foi organizado em dois painéis ao longo do dia, sob coordenação do secretário nacional de Economia Solidária da entidade, Admirson Medeiros Ferro Jr. (Greg). Segundo ele, a iniciativa marca o início de um processo de construção de uma relação mais estruturada entre a CUT e os povos indígenas. “Vivemos um momento de ataque a direitos e aos povos indígenas, e essa aproximação é estratégica”, afirmou.
As mesas de debate
Pela manhã, os debates destacaram a necessidade de ampliar o conceito de trabalho, incluindo atividades como gestão ambiental e produção comunitária, diretamente ligadas aos modos de vida indígenas. Os participantes também ressaltaram que a demarcação de terras está associada à justiça social e à garantia de direitos, além de criticarem a tese do marco temporal, considerada uma ameaça aos povos indígenas.
O representante da APIB, Paulino Montejo, defendeu a revisão da forma como o trabalho é compreendido. “É necessário redimensionar a nossa leitura política para além da visão clássica de patrão e empregado. Os povos indígenas possuem múltiplas formas de produção que precisam ser reconhecidas e respeitadas”, afirmou.
Na parte da tarde, o debate sobre economia solidária e atividades produtivas indígenas aprofundou a discussão sobre políticas públicas, comercialização e acesso ao mercado. As falas apontaram entraves estruturais, como o desmonte da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a partir de 2016 e sua recente recomposição, além de conflitos nos territórios, invasões e a exploração da produção indígena.
A deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP), presidenta da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara, destacou as dificuldades para avançar pautas sobre o tema no Congresso. “Dos 513 deputados, somos apenas duas, e, mesmo assim, enfrentamos resistência. Os cortes no orçamento atingem diretamente a Funai, a Sesai e os povos indígenas”, afirmou. Ela também reforçou a importância da mobilização social: “Sem os movimentos sociais, não conseguimos avançar”.
Os debates convergiram para a necessidade de fortalecer a articulação entre o movimento sindical e as organizações indígenas, reconhecendo esses povos como parte da classe trabalhadora, ainda que majoritariamente inseridos na informalidade.
Avaliação e encaminhamentos
Para a representante da Condsef, Mônica Carneiro, o desafio agora é transformar o compromisso político em ações concretas. “Isso passa pelo mapeamento das atividades produtivas e pelo uso das redes sindicais como canais de comercialização dos produtos indígenas”, afirmou.
Ao avaliar o encontro, Greg destacou que a atividade cumpriu um papel estratégico ao aproximar diferentes atores. “Conseguimos reunir organizações e instituições que, muitas vezes, ainda não atuavam de forma articulada, mesmo estando nos mesmos territórios. Esse é um passo fundamental para consolidar essa agenda e avançar na construção de ações concretas”, afirmou.
Como encaminhamento, o projeto prevê a participação no Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, além da realização de agendas regionais no Ceará, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Amapá. A proposta inclui visitas a territórios, organização de feiras e construção de canais de comercialização, com apoio da Unisol Brasil.