Dirigentes de todo o país, representantes de sindicatos filiados à Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), se reuniram na capital paulista nesta quinta-feira (26) para a abertura do Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora, em uma ocasião histórica para a central e para o movimento sindical brasileiro.
Mais do que um espaço de debate sobre a pauta das mulheres, o encontro é uma oportunidade de reflexão e organização do próprio movimento sindical. Com a organização coordenada pela secretária nacional da Mulher Trabalhadora, Antonieta de Faria, o evento foi pensado para ultrapassar fronteiras temáticas, sendo também um encontro do movimento sindical brasileiro e da classe trabalhadora, que discutirá assuntos importantes para todas e todos.
“A luta das mulheres não pode ser tratada como um tema à parte, mas como parte essencial do projeto de sociedade defendido pelo sindicalismo. Ao reunir dirigentes que vivenciam no cotidiano as negociações, os desafios das categorias e as transformações do mundo do trabalho, também qualificamos o debate do movimento sindical como um todo”, comentou Antonieta.
“São nossas lideranças que, a partir da experiência concreta no chão das categorias, contribuem para elevar o nível das discussões e dar forma prática às pautas de direitos, organização e dignidade da classe trabalhadora”, completou.
A centralidade da participação das mulheres
Em sua fala de abertura, o presidente nacional da CSB, Antonio Neto, destacou que o momento atual exige uma reflexão profunda sobre as mudanças no mundo do trabalho e o papel das mulheres dentro desse cenário.
“O tempo que vivemos exige profundidade. O trabalho se reorganiza, as formas de contratação se transformam, a tecnologia redesenha processos e as relações se tornam mais complexas. Nesse contexto, a experiência das mulheres dirigentes sindicais ganha centralidade”, afirmou.
Segundo ele, a atuação das mulheres no movimento sindical articula dimensões que não podem ser separadas, como o trabalho produtivo, o cuidado, a vida nos territórios e a sustentação dos vínculos sociais.
“Essa visão amplia a compreensão do trabalho e eleva a qualidade da ação sindical. Quando discutimos jornada, discutimos tempo de vida. Quando discutimos renda, discutimos autonomia. Quando discutimos permanência no trabalho, discutimos dignidade”, disse.
Neto também ressaltou que a construção de uma sociedade mais equilibrada exige compromisso coletivo e participação ativa de toda a sociedade, incluindo os homens.
“A presença das mulheres no movimento sindical não apenas amplia a representação. Ela qualifica a ação, aprofunda a leitura da realidade e fortalece a capacidade de transformação social. Fortalecer as mulheres dirigentes é fortalecer o sindicato, a representação e a própria democracia”, concluiu.
Resistência, solidariedade e construção de um outro Brasil
A ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves também participou da abertura e enfatizou a importância de encontros como esse para fortalecer a união entre as trabalhadoras e combater o sentimento de isolamento diante dos desafios sociais.
“Esses encontros são fundamentais porque nos lembram que não estamos sozinhas. Eles criam laços de solidariedade, de afeto e de luta. É assim que vamos construindo um outro Brasil, baseado na organização coletiva e na esperança”, afirmou.
Ela também abordou o impacto da violência contra as mulheres na sociedade e criticou discursos que tentam relativizar o ódio e a misoginia.
“Não podemos aceitar que a violência contra as mulheres seja tratada como algo normal ou como opinião. Misoginia não é liberdade de expressão. Liberdade de expressão é arte, é poesia, é pensamento. Não pode ser usada para justificar o ódio ou a violência”, declarou.
Cida Gonçalves ainda destacou avanços recentes na agenda de igualdade salarial e apontou os desafios que permanecem na ampliação da presença feminina nos espaços de poder.
“Avançamos muito na pauta da igualdade salarial nos últimos anos, mas ainda temos um longo caminho. O Brasil precisa de mais mulheres economistas, mais mulheres dirigentes e mais mulheres ocupando espaços de decisão. Não podemos aceitar que mulheres eleitas votem contra direitos que garantem igualdade para todas”, disse.
Organização e emoção na abertura
Encerrando a mesa de abertura, a secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CSB, Antonieta de Faria, agradeceu o apoio dos sindicatos que contribuíram para garantir a participação de dirigentes de diferentes regiões do país.
Ela destacou que a realização do encontro exigiu grande esforço de mobilização, mas que ver tantas companheiras reunidas fez todo o trabalho valer a pena.
“Não foi simples reunir dirigentes de todo o Brasil, cada uma com suas responsabilidades e desafios. Mas olhar este auditório cheio de mulheres comprometidas com a luta mostra que todo esforço valeu a pena”, afirmou.
Antonieta também ressaltou que a trajetória das mulheres no movimento sindical é marcada por persistência e compromisso com a transformação social. “Nasci para a luta e sei que cada uma de vocês também carrega essa força”, disse.
A dirigente ainda convidou uma representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cristalina, em Goiás, para um momento especial durante a abertura. A trabalhadora leu um poema em memória das vítimas de feminicídio e em defesa do respeito às mulheres, emocionando os presentes e arrancando aplausos do público.
Vozes de todo o país no palco
A abertura do encontro também contou com a participação de diversas lideranças sindicais e representantes de diferentes categorias e regiões do país, que subiram ao palco para compartilhar breves mensagens com o público presente.
Entre elas, a 1ª secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CSB, Márcia Egea, que destacou a importância de levar para as bases sindicais o aprendizado construído durante o encontro.
“Que todas vocês, representando suas categorias, levem para a categoria de vocês tudo o que vamos aprender e discutir, mas também a alegria desse encontro e o que a CSB representa para todos nós”, afirmou.
A presidente da CSB-RJ, Maria Bárbara da Costa, também enfatizou a necessidade de ampliar a presença feminina nas direções sindicais.
“Os sindicatos têm que ter mais mulheres. Não temos que pedir para fazer parte da diretoria, temos que ser convidadas a fazer parte da diretoria, porque nós também somos capazes. Nós somos metade da população — por que não ocupamos metade das posições de liderança, de todos os espaços?”, questionou.
Também participaram com breves pronunciamentos:
- Sandra Maria Bueno, diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo (Sindpd-SP);
- Márcia Elisa Trindade, dirigente da Federação dos Sindicatos de Empregados e Servidores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul (Fessergs) e da CSB-RS;
- Juliana Guaraldo, representante da Federação dos Servidores Municipais e Estaduais de Minas Gerais (Fesmig);
- Arminda Martins, presidente da Federação Nacional dos Instrutores de Trânsito e dos Trabalhadores em Centros de Formação de Condutores em Âmbito Nacional (Fenainst);
- Solange Dornellas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos e Auxiliares em Saúde Bucal do Distrito Federal (SINTTASB-DF);
- Maria Mercedes, presidente do Sindicato dos Professores de Carpina e Região (Sindprof);
- Everilda Gomes de Souza, presidente do Sindicato dos Movimentadores de Mercadorias de Tubarão e Região;
- Luciana Bernardo, vereadora de Itatiba;
- Adriana Marcolino, diretora do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
O Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora da CSB segue com debates, atividades e trocas de experiências entre lideranças sindicais de diversas categorias, reforçando o papel das mulheres na construção de um movimento sindical mais representativo, forte e comprometido com a igualdade.