por Marilane Teixeira, Clara Saliba, Caroline Lima de Oliveira e Lilia Bombo Alsisi
A literatura recente sobre redução da jornada de trabalho no Brasil, especialmente no debate sobre o fim da escala 6×1, evidencia que a diminuição do tempo de trabalho não deve ser analisada apenas como um custo adicional para as empresas, mas como um mecanismo potencial de redistribuição do tempo, da renda e do emprego. A experiência histórica demonstra que a última redução legal da jornada ocorreu em 1988, quando se estabeleceu o limite de 44 horas semanais, sem que isso tivesse produzido efeitos negativos duradouros sobre o nível de atividade econômica. Ao contrário, a reorganização produtiva e os ganhos de produtividade permitiram absorver a mudança institucional, mantendo a produção e ampliando a formalização do trabalho.
A discussão contemporânea recoloca esse tema no centro da agenda pública, especialmente a partir da proposta de redução da jornada semanal e reorganização das escalas de trabalho, como a transição da escala 6×1 para modelos que ampliem o tempo de descanso, como a escala 5×2 ou 4×3. Estudos baseados na PNAD Contínua indicam que uma parcela expressiva da população ocupada se encontra em sobrejornada, com impactos negativos sobre a saúde física e mental, aumento da rotatividade e dificuldades de conciliação entre trabalho remunerado e vida pessoal.
A redução da jornada possui também uma dimensão distributiva relevante. O aumento da produtividade do trabalho observado nas últimas décadas não foi acompanhado por uma redução proporcional do tempo de trabalho, contribuindo para o aumento da desigualdade funcional da renda e para a intensificação do trabalho. Nesse contexto, a diminuição da jornada constitui um mecanismo histórico de redistribuição dos ganhos de produtividade entre capital e trabalho, permitindo melhorar as condições de vida e ampliar o tempo disponível para atividades fundamentais à reprodução social, como educação, cuidado e participação social.
Do ponto de vista econômico, as simulações mais recentes indicam que os efeitos da redução da jornada dependem dos mecanismos de ajuste adotados pelas empresas e pela economia. Modelos que assumem ausência de adaptação produtiva tendem a superestimar possíveis perdas de produto. Por outro lado, quando se consideram mecanismos de ajuste mais realistas, como aumento da produtividade, reorganização do processo produtivo e criação de novos postos de trabalho, os resultados indicam efeitos positivos sobre o emprego e a massa salarial.
Considerando um cenário mais moderado de redução da jornada para 40 horas semanais, as simulações indicam potencial de geração de aproximadamente 610 mil novos postos de trabalho, resultado da necessidade de recompor o volume total de horas trabalhadas na economia. Esse efeito tende a se concentrar sobretudo em setores intensivos em trabalho, como comércio e serviços, nos quais a organização da jornada frequentemente ocorre sob regimes de escala 6×1 e nos quais a elasticidade do emprego à redução do tempo de trabalho é maior.
Além dos impactos sobre o emprego, a redução da jornada pode contribuir para diminuir a rotatividade e o adoecimento laboral, especialmente em ocupações com elevada intensidade de trabalho e baixos salários, como telemarketing, comércio e serviços pessoais. Evidências apontam que jornadas extensas estão associadas a maiores taxas de desligamentos voluntários e afastamentos por transtornos mentais, indicando que a reorganização do tempo de trabalho pode produzir ganhos de eficiência econômica ao reduzir custos associados à rotatividade e ao absenteísmo.
Dados recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) indicam que, em 2025, os desligamentos voluntários concentraram-se principalmente em ocupações de menor remuneração e elevada intensidade de trabalho, revelando sinais importantes de insatisfação com as condições laborais. Entre as funções com maior incidência de pedidos de demissão destacam-se vendedores do comércio, faxineiros, operadores de caixa, atendentes de lojas e mercados, operadores de linha de produção, repositores de mercadorias e atendentes de lanchonetes. Trata-se de ocupações fortemente presentes nos setores de comércio e serviços, caracterizadas por alta rotatividade, forte pressão por produtividade e pouca autonomia sobre a organização do tempo de trabalho.
Em geral, essas ocupações apresentam remuneração média em torno de 1,5 salário mínimo e jornadas semanais situadas entre 40 e 44 horas, frequentemente organizadas em escalas que incluem trabalho aos finais de semana e horários estendidos. Esse padrão evidencia a persistência de postos de trabalho marcados por baixa remuneração, elevada intensidade e limitada previsibilidade da jornada, fatores que contribuem para o aumento
dos desligamentos voluntários. O movimento sugere que parte significativa dos trabalhadores e trabalhadoras busca melhores condições de trabalho, maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal e jornadas que possibilitem maior tempo de descanso, qualificação e convivência familiar.
Do ponto de vista da economia feminista e da reprodução social, a redução da jornada apresenta efeitos particularmente relevantes para as mulheres, que concentram maior carga de trabalho não remunerado. A diminuição do tempo de trabalho remunerado tende a favorecer uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades de cuidado, ampliando as possibilidades de inserção feminina no mercado de trabalho e reduzindo a sobrecarga associada à dupla jornada.
Assim, a redução da jornada para 40 horas semanais, com potencial de geração de cerca de 610 mil postos de trabalho, e a perspectiva de transição para jornadas ainda menores, como 36 horas, devem ser compreendidas como parte de um processo histórico de redistribuição dos ganhos de produtividade e de reorganização do tempo social de trabalho. Mais do que um ajuste técnico, trata-se de uma escolha institucional e política que pode contribuir simultaneamente para ampliar o emprego, melhorar a qualidade de vida e reduzir desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro.
Marilane Teixeira é doutora em desenvolvimento econômico pelo IE-Unicamp e professora do CESIT-IE
Clara Saliba é doutoranda em teoria econômica pelo IE-Unicamp
Caroline Lima é mestranda em desenvolvimento econômico e social pelo IE-Unicamp
Lilia Bombo é graduanda em Ciências Econômicas pelo IE-Unicamp.