O forte temporal que atingiu São Paulo nesta quarta-feira (14) provocou cenas assustadoras no Túnel do Anhangabaú, na região central da capital. Carros ficaram submersos, motoristas precisaram subir nos tetos dos veículos para escapar da água e pelo menos quatro pessoas foram resgatadas pelo Corpo de Bombeiros. Uma situação que poderia ter terminado em uma tragédia ainda maior.
O episódio expõe as consequências de um problema denunciado pelo Sindviários, o Sindicato dos Trabalhadores no Sistema de Operação, Sinalização, Fiscalização Manutenção e Planejamento Viário e Urbano de SP: o sucateamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e a falta de efetivo, que comprometem a capacidade de prevenção de acidentes e colocam em risco a vida de quem circula pela cidade.
A ausência de uma estrutura operacional adequada não prejudica apenas os trabalhadores. Afeta diretamente a segurança da população, especialmente em situações de emergência, quando a presença dos agentes de trânsito e a rapidez na execução de bloqueios preventivos podem evitar acidentes.
Prefeitura determina bloqueios preventivos, mas não garante estrutura
A responsabilidade da CET na prevenção de acidentes durante períodos de chuva está expressamente estabelecida na Portaria PREF nº 1.759, de 1º de outubro de 2025, assinada pelo prefeito Ricardo Nunes, que dispõe sobre o Plano de Prevenção às Chuvas (PPC).
O artigo 10, inciso VI, determina que cabe à Companhia isolar preventivamente vias historicamente afetadas por enchentes e alagamentos, a partir das informações meteorológicas fornecidas pelo Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE). A norma também estabelece a responsabilidade pelo bloqueio e pela sinalização de vias intransitáveis, além da indicação de rotas alternativas aos motoristas.
A contradição é evidente: a Prefeitura estabelece a obrigação de prevenir acidentes, enquanto a própria administração mantém, uma estrutura insuficiente para executar essas medidas.
O bloqueio preventivo de vias exige agentes disponíveis, monitoramento permanente, planejamento, viaturas e equipamentos adequados. Sem trabalhadores suficientes, a capacidade de resposta fica comprometida.
O que aconteceu no Túnel do Anhangabaú exige uma resposta objetiva: por que os veículos ficaram presos no alagamento? Quais protocolos foram adotados? Havia equipes suficientes para realizar a interdição preventiva?
Presidente da CET reconhece falta de recursos, mas é parte da gestão responsável pelo sucateamento
Na manhã desta quarta-feira (14), poucas horas antes do alagamento do Túnel do Anhangabaú, o presidente da CET, Milton Roberto Persoli, participou de uma audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo para discutir o orçamento de 2027.
“O presidente da CET não é um observador da precarização da empresa. Ele está à frente da administração responsável por enfrentar a falta de efetivo, garantir condições operacionais e cobrar os investimentos necessários ao funcionamento da Companhia”, explica Michel Costa, presidente do Sindviários.
É inadmissível que a direção reconheça publicamente a insuficiência de recursos sem apresentar soluções concretas para um problema que compromete a segurança de milhões de pessoas.
Afinal, o que a presidência da CET fez para impedir o avanço do sucateamento? Quais medidas efetivas cobrou da Prefeitura? Onde estão os resultados?
A falta de efetivo não surgiu com o temporal desta quarta-feira. É um problema antigo, conhecido pela administração e reiteradamente denunciado pelo Sindviários. Ignorá-lo ou deixar de enfrentá-lo também exige explicações.
Não se pode administrar uma empresa pública essencial, reconhecer suas deficiências e depois tratar a falta de recursos como se fosse um problema alheio à própria gestão.
Enquanto os trabalhadores enfrentam a sobrecarga e a precarização das condições de trabalho, a população fica exposta às consequências de uma estrutura operacional que precisa de investimentos urgentes.
“É muito fácil apontar o dedo para os agentes de trânsito depois que acontece uma situação como essa. Parte da imprensa já começou a responsabilizar os trabalhadores, mas esquece de perguntar quem é responsável pela falta de efetivo, pela falta de equipamentos e pela verba necessária para manter a CET funcionando. Quem administra a Companhia? Quem decide sobre as contratações e os investimentos? Os agentes não podem ser transformados em culpados pelo sucateamento da empresa. A responsabilidade pela gestão é da direção da CET e da Prefeitura de São Paulo”, afirmou Michel Costa.
E, continua: “A Prefeitura não pode exigir que os trabalhadores façam prevenção sem garantir estrutura para isso. A própria administração determina que a CET realize bloqueios preventivos, mas não assegura as condições necessárias para cumprir essa obrigação. Estamos falando de vidas. A falta de investimento tem consequências para os trabalhadores e para toda a população.”
Sucateamento da CET não pode continuar colocando a população em risco
O SINDVIÁRIOS ressalta que a falta de agentes de trânsito não representa apenas sobrecarga para os profissionais. Ela compromete o monitoramento das vias, a realização de bloqueios preventivos e o atendimento às ocorrências em uma cidade que exige atuação permanente.
Para o Sindicato, o episódio do Túnel do Anhangabaú precisa ser investigado considerando também as condições estruturais da Companhia, a quantidade de profissionais disponíveis e as decisões administrativas que afetam sua capacidade operacional.
A responsabilidade por garantir trabalhadores, equipamentos, viaturas e recursos para o funcionamento da CET é de sua direção e da Prefeitura de São Paulo. Não dos agentes que diariamente enfrentam as consequências da falta de investimentos.
O Sindviários cobra a recomposição urgente do efetivo, a convocação dos aprovados no concurso público, investimentos na estrutura operacional e a responsabilização da gestão pelas condições oferecidas aos trabalhadores.
O alagamento desta quarta-feira deixa um alerta que a administração municipal não pode ignorar: sucatear um serviço público essencial compromete a prevenção de acidentes e coloca vidas em risco.
Não basta cobrar eficiência dos agentes de trânsito. É preciso garantir que tenham condições de trabalhar.
A população precisa de uma CET estruturada. Os trabalhadores precisam de respeito. E a direção da Companhia e a Prefeitura precisam assumir suas responsabilidades.