Após cinco dias de intensas paralisações e protestos que fecharam mais de 500 confecções nos principais polos industriais de Bangladesh, como Gazipur, Mirpur e Ashulia, a força dos trabalhadores têxteis conquistou uma vitória importante. Diante do colapso no setor e da paralisação de centenas de fábricas, o governo e os donos das indústrias cederam à pressão e anunciaram a criação de uma junta de negociação salarial, além de um acordo formal para o reajuste do salário mínimo da categoria.
A resposta dos trabalhadores e trabalhadoras veio em reação à disparada da inflação e do custo de vida no país, que corroeram o poder de compra, afetando itens básicos como alimentação, moradia e transporte.
Para tentar sufocar a greve, o governo mobilizou mais de 10 mil policiais em centros como Mirpur, utilizando gás lacrimogêneo, canhões de água e granadas de efeito moral contra os trabalhadores. A investida repressiva resultou na prisão de pelo menos 60 pessoas, incluindo cinco destacadas lideranças sindicais. Os operários detidos enfrentam acusações de vandalismo, bloqueio de rodovias e incitação de violência, enquanto o governo tenta criminalizar o movimento acusando infiltrados políticos de desestabilizar a economia.
Impasse por valores
A junta de negociação, composta por representantes do governo, dos empresários e dos trabalhadores, firmou o compromisso de concluir os trabalhos de revisão salarial até dezembro. O objetivo é garantir que o novo valor entre em vigor no dia 1º de dezembro e passe a ser refletido nos pagamentos de janeiro de 2027.
Apesar da criação da comissão, o valor do reajuste segue no centro do debate. Isto porquê o piso da categoria é de apenas 12.500 takas (cerca de US$ 102 por mês), figurando entre os salários mais baixos do mundo na indústria do vestuário. A categoria exige um aumento de 140%, elevando o salário mínimo para 30.000 takas (cerca de US$ 242). Organizações de direitos trabalhistas, como a Clean Clothes Campaign (CCC), sustentam que o valor digno para cobrir os custos de vida básicos na região é de pelo menos 32.000 takas (US$ 257). Os donos das confecções alegam preocupação com a perda de "competitividade global" no mercado de exportação com esses salários.
O impacto nas multinacionais da moda (fast fashion)
Bangladesh é o segundo maior exportador mundial de roupas, ficando atrás apenas da China, e emprega mais de 4 milhões de operários, em sua maioria mulheres. O país é o principal polo fornecedor para impérios multinacionais do fast fashion, como Zara, H&M, Uniqlo, Gap, Levis, Primark e Walmart cujo fornecimento está afetado pela paralisação.
Diante da força do movimento e para chantagear os trabalhadores, varejistas ameaçam redirecionar encomendas para países vizinhos de mão de obra ultra-barata, como Vietnã, Camboja e Índia.
A CSP-Conlutas defende que os custos do reajuste salarial sejam absorvidos pelas grandes marcas multinacionais, que faturam bilhões de dólares anualmente espremendo os salários dos trabalhadores locais, cuja situação é totalmente precarizada e vivem sob superexploração.
Nossa Central segue em solidariedade internacional à luta dos trabalhadores têxteis de Bangladesh pelo reajuste imediato de 140% e pelo fim da criminalização dos protestos!